Caro Eduardo Vítor Rodrigues, respondo-lhe publicamente ao seu artigo de opinião no JN, não só como cidadão, mas também como munícipe do Concelho de Gaia.
Começo por o informar que sou apartidário, sem qualquer tipo de enquadramento político ou filiação. De facto, acho a política um mal necessário, e tenho uma repulsa completa por ideologia de pacote. Tento, sempre que me é possível, participar no processo democrático, que vejo como um dever, não como um direito. Não voto em partidos, voto em pessoas.
Das suas palavras do artigo, depreendo que é um forte defensor da liberdade de opinião e da Constituição, e reconheço o pleno direito à sua opinião. E tem razão quando menciona, parafraseando, que existe uma linha ténue que separa a crítica construtiva da calúnia. Mas, como munícipe, confesso que me custa um bocado.
Custa-me ler um artigo a criticar o que suponho serem opiniões contrárias nas redes sociais, quando frequentemente usa esse meio para resposta, ou até – se adoptasse uma interpretação leviana – para efeitos de campanha.
Sabe, eu ando de metro todos os dias e nunca me ocorreu pedir a alguém para me tirar uma “selfie” – talvez a diferença é que o Metro do Porto para mim não é um exercício de popularidade – é o meu principal meio de transporte.
Também me custa a postura do “à vontade não é à vontadinha, respeitinho que existe autoridade por perto”. Não só porque, como menciona, são posturas que associo a um período de falta de liberdade de expressão que marcou a nossa história recente (poderá ser defeito meu, nasci depois do 25 de Abril, mas ouvi algumas coisas na escola), mas também porque alguém que sente necessidade de tornar público as eventuais pressões que sente em redes sociais e uma suposta falta de contraditório (aposto feijões que um bom post nas redes sociais tem mais visualizações que a tiragem diária do JN), numa estrutura que permite, de forma igual e indiscriminada, o direito de resposta (ou de denúncia) a qualquer cidadão, não me parece alguém capaz de estabelecer os consensos necessários de quem tem um cargo de chefia.
A minha opinião certamente peca por inexperiência, mas custa-me ver o autarca de Gaia, que me representa como munícipe, dar-se a picardias públicas e a enviar recados a pessoas incógnitas, ao invés de legitimamente utilizar os artigos que tão bem transcreve para fazer actuar a autoridade que menciona.
Custa-me a ameaça da autoridade, porque cresci num país livre e com liberdade de opinião, em que o contraditório não é feito de forma unidireccional utilizando uma posição privilegiada na imprensa como comentador.
Custa-me ver tamanha preocupação com o que se passa nas redes sociais (que pelo tom do artigo, tão despreza), mas não esclarece os munícipes sobre questões polémicas recentes, como atribuições de medalhas (pagas com o erário público, presumo) a pessoas cuja gestão criticou abertamente.
Custa-me constatar que provavelmente não está preparado para o grau de escrutínio público, de exposição (e admito, por vezes leviana) na praça pública que as figuras públicas sofrem.
Eu que nunca causei prejuízo ao Município (pronto, admito, uma vez parti o giz na escola) , tenho direito a uma medalha? Fico a aguardar. Entretanto já puxei uma cadeira, não vá demorar algum tempo.